Tratamentos

O câncer é uma doença cuja incidência vem aumentando de forma considerável a cada ano, e os proprietários de “pets” portadores deste mal ficam perdidos em meio ao turbilhão de informações sobre o assunto, muitos dos quais sequer são verdadeiras.

Cirurgia Oncológica

Há alguns anos eu tenho encarado as cirurgias oncológicas de forma diferente. Eu aprendi a respeitar este tipo de tratamento e a principalmente diferenciar de um procedimento cirúrgico não oncológico. No momento em que procedemos à excisão cirúrgica de um tumor maligno, é preciso ressaltar que esta massa geralmente está no organismo do paciente há algum tempo, portanto, o que é muitas vezes o suficiente para liberar algumas toxinas, formar vasos sanguíneos calibrosos e interagir com outros órgãos provocando uma relação de simbiose ou não, o que muitas vezes pode-se evoluir para um quadro para-neoplásico. Dependendo do tipo de tumor, durante a excisão do mesmo, pode ser liberando toxinas na corrente sanguínea proveniente de células malignas, agravando o estado geral do paciente durante a intervenção cirúrgica ou após o término da mesma. Baseado nesta premissa, assim como o surfista aprendeu a respeitar o mar, eu aprendi a respeitar o câncer. A diferença é que se o mar estiver revolto, o surfista não irá enfrenta-lo pegando ondas naquele dia, no entanto, em se tratando de um câncer maligno nós não poderemos esperar pelo dia seguinte, pois o tempo na oncologia é um fator primordial.

Eu particularmente converso muito com os outros veterinários da equipe, procuro sempre entrar o mais concentrado possível e principalmente dar o meu melhor a cada cirurgia. Pois ali existe um paciente que depende de nós! Os procedimentos cirúrgicos devem sempre ser muito bem conversados e explanados em detalhes aos proprietários, expondo os riscos e sequelas eminentes. A tentativa em se buscar a cura do câncer pode trazer mudanças profundas ao paciente, mas quase sempre pode valer a pena.

Independentemente de qualquer coisa, o proprietário deve estar ciente dos riscos cirúrgicos, mas principalmente não ter dúvida de que aquele é o melhor caminho a ser tomado! E se caso a cirurgia não der certo, e infelizmente não estamos livres disto acontecer, não deve haver arrependimentos ou remorso, por parte dos donos. A opção do tratamento deve ser oferecida pelo médico veterinário e a decisão cabe única e exclusivamente ao proprietário.

Quimioterapia

A quimioterapia é um medicamento utilizado exclusivamente no combate ao câncer. Explicando de uma forma grosseira, entre as substâncias utilizadas, existem diferentes tipos e classes de quimioterápicos que se caracterizam de acordo com sua ação, mas normalmente elas interagem com o DNA das células que se encontram em processo de multiplicação ou divisão celular (mitose) acelerada. As medicações são as mesmas utilizadas no combate aos tumores do homem, não havendo substâncias específicas para diferentes espécies, tais como cães, gatos, etc. A escolha do medicamento utilizado dependerá do tipo de câncer a ser tratado, ou seja, existem protocolos diferentes, que se basearão no perfil da doença ou paciente. Lembrando que este tipo de intervenção deve ser realizada por um profissional da área ou oncologista, pois a escolha errada do medicamento pode agravar o quadro do paciente e muitas vezes levar ao óbito.

As quimioterapias podem ser utilizadas de forma única (monoterapia), cuja aplicação pode ser feita semanalmente ou a cada 21 dias, ou pode ser associada a outros quimioterápicos, também de forma semanal, quinzenal ou a cada 21 dias (poliquimioterapia). Em ambos os casos, o paciente sempre deverá ser acompanhado por um médico veterinário oncologista, que irá direcionar o tratamento, por meio de análise de exames de sangue, imagem e segmento.

A grande preocupação que aflige aos proprietários diz respeito aos efeitos colaterais, que as medicações podem proporcionar aos nossos melhores amigos. Perguntas do tipo “eles sofrerão muito com o tratamento?” ou “se a medicação é a mesma utilizada para humano, eles sentirão igualmente aos efeitos das drogas? ” são as que mais costumo ouvir, o que perfeitamente compreensível.

É bem verdade que nós conscientemente associamos o tratamento de quimioterapia ao sofrimento, o qual pessoas do nosso convívio são submetidas no combate ao câncer, e este fato deve ser abordado durante a primeira consulta.

Embora seja um tratamento muito agressivo, os sintomas em cães e gatos parecem ser mais brandos, quando comparados aos humanos, e felizmente uma minoria dos nossos pacientes passa muito mal, a ponto do tratamento ter que ser interrompido. Eu sempre procuro associar a qualidade ao tempo de sobrevida aos nossos amigos. É preciso que a sessão de quimioterapia seja feita de forma tranquila, procurando estressar o menos possível os animais, que desconhecem o motivo pelo qual ele está ali. E não somente isto, mas no início do tratamento lidamos com proprietários ansiosos e muito preocupados, sendo assim, tentamos minimizar toda esta carga de estresse.

Algumas vezes nos deparamos com proprietários em dificuldades financeiras para realizar o tratamento. Lembre-se que pode ser importante fazermos cotação referente aos valores de sessões de quimioterapia, entre colegas e clínicas, no entanto, é fundamental deixar claro que não somos meros aplicadores de quimioterápicos, ao contrário, o tratamento oncológico exige alta capacidade técnica, competência e acima de tudo respeito ao paciente e a doença. Costumo sempre dizer que não tratamos “um paciente”, mas sim “o paciente”, pois a escolha do tratamento envolve detalhes, que dizem respeito ao perfil do mesmo. É fundamental que os proprietários sintam-se seguros em saber que o profissional que está cuidando de seu amigo é alguém gabaritado para realiza-lo.